A mulher: o tempo e a benção parte I

Mulher: o tempo

Dia oito de Março é comemorado o dia internacional da mulher e o artigo deste mês está dedicado à elas. Os trechos em destaque são do livro A ciranda das mulheres sábias, da autoria da psicanalista junguiana Clarissa Pinkola Estés, também autora de Mulheres que correm com os lobos, ambos editados pela Ed. Rocco, 2007 e 1994, respectivamente. Conheci as publicações dela há alguns anos. E realmente de minha parte, acredito que somente uma mulher entente o que significa ser mulher, mas me arrisco através de suas palavras prestar-lhes homenagem. Nas palavras de Estes:

[...]
... Venha, sente-se comigo um pouco. Pronto, vamos fazer uma pausa, deixando de lado todos os nossos "inúmeros afazeres". Haverá tempo suficiente para eles mais tarde. Em um dia distante, quando chegarmos às portas do paraíso, posso lhe garantir que ninguém vai nos perguntar se limpamos bem as rachaduras na calçada. O que é mais provável é que no portal do paraíso queiram saber com que intensidade escolhemos viver; não por quantas "ninharias de grande importância" nos deixamos dominar.
[...]
Você já percebeu? "Reservar" para outra hora é o jeito que o ego tem de dizer, rabugento, que não acredita que a alma mereça prazer no dia-a-dia. Mas ela merece, de verdade. A alma sem dúvida merece.
[...]O arquétipo da mulher sábia pertence a mulheres de todas as idades e se manifesta sob formas e aspectos singulares na vida de cada mulher.
[...]
mulheres na vida real que são grandes genitoras de gerações de idéias, processos, genealogias, criaturas , períodos de sua própria arte...[...] (pp. 7-12)

As três idades da mulher, 1905, Gustav Klimt
 óleo sobre tela, 180x180cm
No mundo da arte muitos tiveram na imagem da mulher uma poética, Gustav Klimt, artista nascido em 14 de julho de 1862, também foi um deles. Dentre suas obras mais famosas está O beijo de 1907-1908. Influenciado principalmente pela morte de seu irmão começou a trabalhar em suas obras o ciclo da vida. Em As três idades da mulher de 1905 trabalhou o tema, que segundo estudiosos teria se inspirado na obra As idades e a Morte, do pintor renascentista alemão Hans Baldung Grien, obra pertencentente ao acervo do Museu do Prado, Espanha. Interessante perceber o que o próprio tempo faz ao tratar do mesmo assunto, observando as duas imagens. 

Sobre a obra de Klimt: "Em pintura, tanto o emprego  preeminente da ornamentação como representação de mulheres nuas em atitude provocante são surpeeendentes. No entanto e precisamente esses dois motivos definem a originalidade da obra de Gustav Klimt. [...] diferentemente de seus contemporâneos, Klimt não banalizou seus temas. Apesar do peso atribuído a ornamentação em suas obras, o artista procurou impor sua liberdade de critério.[...] e da recordação constante da essência da vida interpretada como a inevitável passagem do tempo e como caminho para a morte." (Camps, Teresa. "O sentido da pintura de Gustav Klimt." In: Coleção Folha Grandes Mestres da Pintura, vol. 20. Barueri, SP: Editorial Sol 90, 2007)
 
Ainda nas palavras de Estés:

Na mitologia, porém, talvez seja onde isso fica mais nítido... que a grande avó, como representante do arquétipo maior da mulher sábia, tem uma tarefa crucial que e intimdiante, ousada, desafiadora e alegre. A tarefa crucial da grande mãe e simplesmente a seguinte, e nada além disto: viver a vida plenamente. [...]
[...]
Uma das minhas avós, Viktoriá tinha um cachorrinho [...]também tinha um gatinho preto [...]. Ela conversava com o cachoraro e o gato como se fossem gente..."Os animais têm alma, você sabia?", ela costumava dizer.
Quando o cachorro de repente dava um salto com grande energia para acompanhar um novo cheiro no ar, o gato também começava de repente a correr pelo aposento. Da mesma forma, quando o gato saltava do alto do velho rádio de celulóide para o encosto da poltrona de vovó, com seus paninhos de crochê, e não parava de saltar um lado para o outro, o cachorro percebia e começava a pular, todo sorridente. Quando isso acontecia, era inevitável que minha avó dissesse que precisávamos nos unir a eles. Ela agarrava minhas mãozinhas, e nós saiamos pulando e saltitando, no mesmo ritmo da dança do gato e do cachorro, já em andamento. Ela dizia: "Quando uma ppessoa vive de verdade, todos os outros também vivem". E todos os animais, nós incluídas, por meros momentos, voltavamos a ser selvagens.
Ela queria dizer que, quando uma criatura resolve se dedicar a viver do modo mais pleno possível, muitas outras que estiverem por perto se "deixarão contagiar". Apesar das barreiras, do confinamento, até mesmo de lesões, se alguém se determinar a superar tudo para viver plenamente, a partir daí outros também o farão, e esses outros incluem filhos, companheiros, amigos, colegas de trabalho, desconhecidos, animais e flores. "Quando uma pessoa vive de verdade, todos os outros também vivem." Esse e o principal imperativo da mulher sábia. [...] (pp. 12-14) 

O poema que se segue é da psicóloga e psicanalista Viviane Mosé, a respeito do tempo:

(Seqüência de "poemas-tempo" - sem-título)

quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele
As Idades e a Morte, 1541-1544,
 Hans Baldung Grien
óleo sobre madeira, 151x51cm
soprando sulcos na pele soprando sulcos?

o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina

sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma

(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)

acho que a vida anda passando a mão em mim.
a vida anda passando a mão em mim.
acho que a vida anda passando.
a vida anda passando.
acho que a vida anda.
a vida anda em mim.
acho que há vida em mim.
a vida em mim anda passando.
acho que a vida anda passando a mão em mim

e por falar em sexo quem anda me comendo
é o tempo
na verdade faz tempo, mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás

Um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos

acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando

(Mosé, Viviane. Pensamento chão, Sete letras, 2001)

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